quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Solidão - Capítulo I


            Esse é o primeiro capítulo de uma história que estou escrevendo a um tempinho...
            Espero que gostem! Porque depois vem mais...
Numa rua pacata, um garoto sem pai nem mãe comia jujubas coloridas. As azuis eram suas prediletas. Deitado e próximo a um muro de blocos vermelhos, com os braços esticados para cima soltava as guloseimas uma a uma, com um movimento preguiçoso. Elas, por sua vez, não tinham escapatória: caíam diretamente em sua boca.
Adorava sentir o aroma das calçadas imundas com papéis de todos os tipos jogados no chão, lama e poças de água nos buracos cimentados após a garoa matinal da cidade. Pessoas sonolentas que iam para seus respectivos destinos, desejando ou não estar em meio às entranhas de edredons, bocejos e espirros cercavam o ar de sete e pouco de uma manhã de domingo. Porém, logo percebera que o último doce cor de céu estava em suas mãos. Admirou-o com os olhos cheios de pesar. Analisou os cristais de açúcar, o brilho opaco e o formato do doce. E numa bocada apenas engoliu-o. Fechou o pequeno pacote de papel com as balas das cores restantes e guardou no bolso de sua mochila, seu pequeno tesouro.
Levantou, tirou as pequenas impurezas coladas em sua roupa desbotada e foi em direção a um pequeno beco mal iluminado. Escondeu a pequena bolsa numa brecha entre uma lata de lixo e cobriu-a com um saco plástico. Olhou para os dois lados e deu um suspiro de alívio. Ninguém o vira.
Seus cabelos acobreados e sujos, com fios desgrenhados que cobriam sua nuca numa cascata retilínea entraram em movimento assim que a criança solitária começara a correr em direção a lugar nenhum. Ultrapassara um, dois, três quarteirões e avistara algo que lhe despertou desespero capaz de causar intensos calafrios. A roupa úmida incomodava a ponto de ser arrancada pelo menino, que se sentia ainda mais atormentado. Agonia e mal estar colonizavam seu corpo como um exército de mil homens a uma aldeia de camponeses.
Com um movimento brusco e harmonioso, apoiou-se no chão com as mãos. Lágrimas escorriam aos poucos em seu rosto acinzentado, veias pulsavam de forma a saltarem do corpo. Seu corpo mudava, adquirindo formas delicadas e sinuosas, onde o corpo pardo fez-se de um reflexo de juventude à beleza misteriosa que há num felino.
O instinto animal tomou sua mente por completo e o fez correr em disparada, abandonando suas vestes, agora largas, na direção oposta, e seguiu rumo ao pequeno beco onde havia deixado seus pertences.

Correra o mais rápido que pudera durante algumas horas, chegando a uma área desconhecida, uma selva a ser explorada. Os olhos amendoados, alçando um tom avermelhado, percorreram jardins floridos, garagens, casas abandonadas, sobrados analisando-os meticulosamente, procurando sinais da presença daquilo que evitava.
 Uma diversidade incrível de pessoas de etnias e gostos diferentes. Brancos, mulatos, negros, pardos, católicos, góticos, punks, crianças e idosos percorriam o mesmo caminho. Carros pequenos, esquisitos, verdes, variáveis. Um mundo apenas num piscar de olhos. Um lugar que não precisava dele para existir, onde o desconhecido cercava-o por todos os lados. 
Esquecera-se de seus medos e de suas jujubas para viver uma aventura.
Cada passo que dava o distanciava do beco que considerava “lar”: onde Dona Filomena, senhorinha simpática que lhe oferecia guloseimas assim que comesse o almoço com arroz, feijão, carne, verduras e legumes (que detestava como qualquer garoto de 10 anos); onde dormia e escondia seus pertences; onde sofria constantes humilhações de pessoas que não tem valores; ficara ensopado graças às chuvas, e adversidades do gênero... Distanciava-o de todas as recordações que ainda tinha.
Porém, nenhuma delas foi capaz de fazê-lo permanecer naquele lugar monótono. A final de contas, a infância é irmã da curiosidade: ambas crescem conosco. Agora almejava encontrar novas experiências, que lhe proporcionassem novas lembranças.
Do ar cheio de umidade e da vizinhança tranquila, o pequeno gato aventurou-se a explorar o novo ambiente que descobrira. Ao meio-dia, cercado de casas, carros e pessoas, o caos predominava, tornando a jornada de descobertas ainda mais instigante. Caminhou em ruas, esquinas, becos, subiu em telhados, escadas e janelas durante horas, maravilhado com tantas cores e objetos. E assim o tempo foi correndo na velocidade de um pássaro planando numa corrente de ar. Então, a fome, que se mantinha a espreita de sua mente, domara-lhe.
Padarias, açougues, mercados, lanchonetes esbanjavam a fartura que o pequeno nunca tivera. Ao menos se estivesse em sua outra forma e com roupas poderia pedir comida ou algumas moedas. Entretanto, se voltasse a sua forma habitual, sua nudez chamaria a atenção de todos, deixando-o constrangido. Mesmo ciente de que algumas pessoas poderiam ajudá-lo após ver sua situação deprimente, sentir-se-ia furioso por trazer-lhe sensações de lembranças que não se lembra.
Já não suportando ficar em pé e com a fome corroendo suas víceras, sentou-se em frente a um restaurante e apreciou a carne ser assada em uma espécie de churrasqueira giratória. Aproximou-se da máquina, e com alguns saltos tentou alcançar algum pedaço que lhe satisfaze-se. Distraído com o jogo de pegar, não percebera um senhor robusto e de cabelos brancos aproximar-se. O homem pegou o pano que amarrara na cintura, enrolou-o e bateu no pobre animal, que choramingando de dor abandonou o pedaço de carne que conquistou antes de ser expulso. E como nômade, percorrera vários lugares em busca da solidariedade alheia.
Passo a passo, desviava-se de passos desiquilibrados, sapatos de couro, saltos vermelhos, tênis e diversos. E assim uma grande tristeza e cansaço abateram-no.
A multidão passava e nenhuma prontidão para com o pequeno gato surgiu. O cansaço venceu-o que logo desmaiou sem resistências. Dos pequenos olhos semicerrados, gotas salgadas transbordavam. A solidão lhe trouxe o desamparo e a liberdade.

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