segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Relicário



                 - Feliz aniversário, querida!
                 - Muito obrigada, mãe! – Ambas se abraçam. – Mas eu gostaria de completar 18 anos ao invés de 10. É tão chato ser criança...
                A progenitora olhou nos olhos da aniversariante com fixação hipnotizante. Era possível notar o pequeno degradé de cores nas íris castanhas dessas mulheres.
                - Viva a sua vida sem preocupar-se muito com o amanhã. O destino de todos é envelhecer e morrer.  – disse a filha.
                Pelo rosto da menina, lágrimas de tristeza escorregaram. A mãe envolveu-a em seus braços e sua roupa absorveu as gotas salgadas. E também o mal-estar de tal conselho.

                Semanas depois, a pequena menina recebeu de um amigo uma orquídea. Não havia aroma algum, mas era tão linda que a colocou em seu cabelo, desejando tê-la para sempre.
                Algumas horas  se passaram  e a flor já não era a mesma. As pétalas lilás perderam a vida que exibiam. Ao perceber tal desastre, a garotinha desabou em lágrimas, pois seu presente estava morrendo rápido demais. O medo tomou-lhe a alma: e se minha começasse a se extinguir da mesma maneira?
                Correu para o quarto e abraçou o presente morto da mesma forma que a mãe lhe abraçara. Tinha pena da flor e remorso por não ter cuidado mais daquilo que recebera.
                Ao chegar à escola, na manhã seguinte, relatou o ocorrido ao amigo. Ele, com um sorriso carinhoso, disse-lhe:
                - Não se preocupe! A beleza que possuía era efêmera, uma chama de vela. Trar-lhe-ei todos os dias uma nova para que não se esqueça de que o tempo também passa por nós.
              Os olhos castanhos brilharam. Havia lágrimas. Mas a alegria e um formigamento no estômago. Sua face estava rubra. Um “muito obrigado” saiu de seus lábios de forma tímida.

              Num dia de verão, abriu um caderno para admirar as orquídeas recebidas durante três anos, que guardara com zelo. Seus 18 anos estavam completos, mas aos 13 aquela pessoa que a presenteava teve que ir.
                Sentiu o rosto molhado.
                -Como eu desejo ter apenas 10 anos novamente... – sussurrou  com a voz trêmula.    
                O tempo não voltará atrás.

Um comentário:

  1. Um dos textos que escrevi até agora...
    Não é dos melhores, mas dá pro gasto.

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